terça-feira, 3 de junho de 2008

POESIA



Último volume das obras reunidas de um dos mais importantes poetas brasileiros


CD acompanha livro com gravação de poemas do autor lidos pelo próprio Piva


Estranhos sinais de Saturno, do poeta paulistano Roberto Piva, é o terceiro volume de suas obras completas, organizadas e apresentadas por um dos principais nomes da atual crítica brasileira, o professor da Unicamp Alcir Pécora. Dividido em quatro seções, contém a poesia de Piva produzida do início dos anos 1980 até hoje: traz, assim, o relançamento integral de Ciclones, de 1997; o lançamento do livro inédito que dá título ao volume; um terceiro grupo de “manifestos” e, por fim, um CD contendo poemas lidos pelo seu autor. Integram ainda o volume uma “Nota editorial”, um “Posfácio” de autoria de outro grande nome da crítica contemporânea, Davi Arrigguci Jr., e uma “Bibliografia” detalhada. Através desta iniciativa edi torial, um poeta brasileiro contemporâneo tão conhecido quanto relativamente pouco lido tem sua obra reeditada à altura, tornando-a devidamente acessível para o público, a crítica e a academia. Roberto Piva é um caso particular na poesia brasileira contemporânea. Essa particularidade é a soma de vários aspectos. Não em ordem de importância, há o fato de ele poetizar a cidade de São Paulo, quando a cidade é a grande ausente da poesia paulistana desde o modernismo. Além disso, sua obra surge à mesma época do construtivismo concretista, do qual, de certa forma, Piva é o grande antípoda – ainda mais que a poesia “marginal” carioca, cuja maior representante é Ana Cristina César. A poesia do século XX descende diretamente do simbolismo. É de sua liberdade individualista, desafeita às formas clássicas, que advém tanto as vertentes construtivistas (como o futurismo) quanto as subjetivistas (como o surrealismo). Nos anos 1950, a primeira vertente originaria o concretismo, enquanto a segunda tanto a poesia “marginal” no Brasil quanto a poesia beat nos EUA. Piva, em suma, é um poeta moderno cuja ascendência inclui o simbolismo, a poesia de Whitman, o movimento beat, o jazz, a contracultura dos anos 1970 e os movimentos pelos direitos civis, além da citada temática urbana. Deve-se acrescentar ainda sua relação com a chamada etnopoesia – ligando Piva ao multiculturalismo – através da figura-síntese do xamã, recorrente em sua fase recente. De tudo isso, o aspecto mais conhecido &ndas h; numa poesia de resto bem menos conhecida do que deveria – é o homossexualismo, e mais genericamente o sexualismo, em que, apenas para ficar na língua portuguesa – deixando então de lado figuras seminais como Kaváfis –, Piva é herdeiro direto do grande e hoje grandemente desconhecido contemporâneo de Fernando Pessoa que foi António Botto. Tudo isso é mais que suficiente para falar da importância e da particularidade (uma alimentando a outra) da poesia de Piva, restando, porém, referir o prazer estético de uma poesia que traz a marca – hoje rara – da oralidade. Como diz Alcir Pécora do CD que integra o volume – num texto ensaístico que renova a recepção crítica da obra de Piva: “Quando ele a lê, sua poesia se evidencia como verdadeira presença, [...] uma presença física, tensa, temível e arrebatadora, [...] como [se aí] encontrasse sua melhor condição, o ponto forte em que foi nascida, a mais justa freqüência de sua vibração”.
TRECHO:
o mundo subterrâneo
está mobiliado
por coxas de garotos
selvagens
o mundo solar
está mobiliado
por olhos
de garotos com
almas de pétalas
eu sou o orixá
com pênis
do tamanho do
pênis do elefante
pássaros se dedicam
de imediato à obra
em negro
estrelas em prontidão
relâmpagos
temperam
a cerveja dionisíaca
de Paracelso
cuja espada
faz dançar pirâmides
feito um raio
arrebenta
o plano ruidoso
do nosso
século
(“Xangô e Paracelso”)
O AUTOR:
Roberto Piva nasceu na cidade de São Paulo em 1937, onde sempre viveu. Desde os anos 1960, é figura marcante na paisagem poética paulistana, através da publicação de poemas em vários meios e da participação pessoal em inúmeros eventos. Integrou a Antologia dos novíssimos (São Paulo: Massao Ohno, 1961) e 26 poetas hoje (org. Heloísa Buarque de Holanda, Rio: Labor, 1976, 1.a edição / Rio: Aeroplano, 1998, 2.a edição). Publicou os livros de poemas Paranóia (São Paulo: Massao Ohno, 1963 / São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2000, 2a. edição), Piazzas (São Paulo: Massao Ohno, 1964, 1a. edição / São Paulo: Kairós, 1980, 2a. edição), Abra os olhos e diga ah! (São Paulo: Mass ao Ohno, 1975), Coxas (São Paulo: Feira de Poesia, 1979), 20 poemas com brócoli (São Paulo: Massao Ohno/ Roswitha Kempf, 1981), Quizumba (São Paulo: Global, 1983), Antologia poética (Porto Alegre: L&PM, 1985) e Ciclones (São Paulo: Nankin, 1997). Todos esses livros foram reunidos em três volumes publicados pela Editora Globo: Um estrangeiro na legião, Mala na mão & asas pretas e o recém-lançado Estranhos sinais de Saturno.

Ficha técnica:
Título: Estranhos sinais de SaturnoAutor: Roberto PivaOrganização e nota introdutória: Alcir PécoraPosfácio: David Arrigucci Jr.Editora: GloboGênero: PoesiaCapa e projeto gráfico: Raul Loureiro e Claudia WarrakPreço: R$39,00Número de páginas: 224Formato: 14 x 21 cm

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