quinta-feira, 26 de novembro de 2015

LIVRO - DIVIRTA-CE RECOMENDA

A história de um piloto de avião que se tornou morador da Cracolândia

Fabian Nacer, brasileiro de classe média, ex-usuário de crack. Usou todo tipo de droga pesada, durante mais de vinte anos. Atingiu o fundo do poço quando foi morar na Cracolândia, nos anos 1990. Foram seis anos de rua, consumindo crack sem parar. Fabian estima ter fumado 20 mil pedras de crack. Dormia num bueiro. Chegou a pesar menos de 40 quilos. Foi internado 25 vezes. Convivia diariamente com a violência, a prostituição e a miséria a céu aberto, na maior metrópole do país.
Sobreviveu por um milagre. Até hoje não entende como seu cérebro não fritou.
Em parceria com o jornalista Jorge Tarquini, Fabian conta com exclusividade sua história, pontuada por muitas polêmicas e revelações chocantes Em "Vinte mil pedras no caminho - A história de um piloto de avião que se tornou morador da Cracolândia", lançamento da Geração Editorial.
Hoje, Fabian é um dos maiores nomes do país no estudo e prática das políticas de reabilitação.
O jornalista Jorge Tarquini é famoso por ter tomado o depoimento de uma garota de programa e transformado sua história num best-seller mundial: O doce veneno do escorpião – Bruna Surfistinha. E ele está de volta com mais uma obra polêmica, que conta a vida de um ex-morador da Cracolândia, ninguém menos que Fabian Nacer.
Vinte mil pedras no caminho é um relato exclusivo e sem censura, sobre a devastação que o crack causou na vida de um homem, de uma família e de incontáveis pessoas que caíram direta ou indiretamente na armadilha da droga, no Brasil dos anos 90.

Denso e chocante, o livro chama atenção para feridas abertas no seio de mães, pais, vítimas, culpados, inocentes, vivos e mortos, de ontem e de hoje. Presentes não só na história singular (e histérica) de um Fabian, mas na de milhares de outros como ele, que estão por aí flertando com o lado mais escuro, mais perigoso e atraente da irrealidade. Da ilusão de leveza, que no começo pode se assemelhar à liberdade. Mas é só a boca do dragão…

 Leia entrevista com os autores:

O que atraiu você para contar a história do Fabian?
JORGE TARQUINI:
De uns tempos para cá, São Paulo deixou de ter a “Cracolândia”, para que praticamente cada bairro tivesse a “sua Cracolândia”. Com isso, os viciados deixaram de ser invisíveis, pois não era mais preciso ir até o centrão para ver no que, um ser humano viciado no crack, se transformava. Quando conheci o Fabian e sua história, percebi que cada um daqueles fantasmas que vagam noiados pelas ruas tem algo para contar. Só que o Fabian tinha mais: uma história “pré-crack” alucinante – e uma história “pós-crack” que valia a pena ser contada.

Depois de escrever um livro com uma personagem real do universo da prostituição, uma garota de programa, agora você escreve um novo livro desvendando um submundo, digamos. Você está se especializando nessas histórias?
JT:
Não, não se trata de especialização. Depois do livro da Bruna, eu virei uma espécie de “para-raio” de personagens, digamos, “no desvio”: fui procurado por traficante, ex-amante de político, um rapaz seduzido por um padre no interior… Todo mundo querendo que eu contasse sua história.

 Elas são atraentes, por seu inusitado, por seu poder de revelar mundos escondidos?
JT:
Muito! Nem todas, porém, me motivaram a abraçar um projeto. Só que, no meio do caminho, também contei outras histórias, como quando escrevi o livro dos 50 anos do Grupo Silvio Santos, por exemplo; ou comecei um projeto ainda em andamento, contando histórias de vida de pessoas que se fizeram sozinhas na vida e até mesmo um romance em andamento.

 E como é ouvir essas histórias?
JT:
O jornalista quase nunca conta a sua própria história, assim como biógrafos ou autores de livros que contam histórias de vida. Seria ingênuo afirmar que seja isso o que define um autor ou um jornalista. Assim, ouvir histórias (e escrevê-las) é meu ofício há mais de 30 anos… Só que, tanto no caso de Bruna como no de Fabian, confesso que houve um lado meio voyeur: eu era um observador privilegiado. E é isso que busco quando estou escrevendo. Como um autor de ficção, só que com personagens reais. Porém, houve um dia em que o Fabian comentou que, ao contar sobre o crack, sentiu o gosto da droga na boca. Sinal de alerta para alguém que já estava limpo havia mais de dez anos… E eu, claro, fiquei tocado com o comentário. Afinal, como jornalista e autor de não-ficção, tenho de escavar fundo para tirar tudo de um depoimento: cheiros, cores, sensações. Só que não faz parte do trabalho do autor jogar ninguém do desfiladeiro. Nem no jornalismo, nem na hora de escrever um livro.

E qual a maior dificuldade em escrever essas histórias?
JT:
Assim como em O Doce Veneno do Escorpião, aqui também, como autor, tive o desafio de contar do modo mais preciso possível as histórias – porém, sem fazer apologia da prostituição ou das drogas, sem transformar os personagens em vilões ou heróis – deixando que o leitor pense o que quiser deles. É um fio da navalha. E não seria honesto fazer esse tipo de manipulação. Prefiro que a maneira com que escolhi contar as histórias, por si, tenha a sua força própria.
 
Acredita que essa história possa repetir o sucesso de vendas de O Doce Veneno do Escorpião e até chegar ao cinema ou a uma série, como a Fox está fazendo com Bruna?
JT:
Se eu tivesse o poder de saber se um livro que escrevi vai ser um best-seller, talvez eu já tivesse escrito mais uns dez deles (risos). Mas não faço meu trabalho pautado nisso, o que não significa que o potencial não esteja ali: uma boa história atual, polêmica e forte, contada com esmero em um livro editado de forma primorosa pela equipe da Geração, capitaneada pelo Luiz Fernando Emediato. Mas já estamos trabalhando para levar o livro para as telas.

 O que tem a falar sobre o livro e sua vida?
Fabian Penyy Nacer:
Pelo fato de ter conquistado uma boa formação acadêmica depois que parei de usar e saí da rua, me sinto privilegiado, pois tenho ideias inovadoras que surgem. Sou o único “noia de rua” pós-graduado. Tenho muitos arrependimentos, mas jamais trocaria minha história de vida por outra e jamais abriria mão de passar pelo que passei. Mas certamente não faria de novo. Espero que adolescentes e seus pais leiam o livro – e que não seja somente “mais um livro de história de ‘noia’”, como diversos que existem por aí e que não ensinam nada.

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